Acordei, olhei pela janela. Estava um lindo dia em Paris, bem, pelo menos para mim. Estava chovendo forte e o vento estava cortante, exatamente o tipo de dia perfeito na minha opinião. Era dia treze, eu acho, o mês era outubro e o ano dois mil e vinte um. E hoje era um sábado, o que tornava o dia mais maravilhoso ainda. Pois sábado é a mesma coisa que nada de trabalho. Honestamente, não estava nos meus planos se mudar para a cidade dos meus sonhos e acabar arranjando um emprego meia boca. Mas, bem, muitas coisas que eu planejei não deram lá muito certo. Meus planos de oito anos de me tornar uma estrela-do-rock quando fosse maior, por exemplo, não chegou sequer perto de dar certo. Nem meu plano aos sete de me tornar dona de todos os brinquedos do mundo e, muito menos, o meu aos seis de aprender a falar com os animais. Eu ri. Era engraçado lembrar todos os planos malucos que eu já havia feito. O pior deles eu havia feito foi mais ou menos aos quinze. Eu planejei um para sempre. Bem, já era de se esperar que esse fosse um daqueles meus planos que não dariam certo, e eu realmente nunca achei que fosse, mas mesmo assim eu queria, e queria muito. Mas, como já disse, nunca acreditei em para sempre.”Para sempre existe sim. E eu vou provar para você e depois provaremos para o mundo”, me dizia ele. “‘Para sempre’ uma ova! Isso não existe.”, pensava eu. Não sei se era o sorriso ou o olhar dele ao me dizer que poderíamos ser eternos, mas honestamente, ele chegou muito perto de me convencer a acreditar nessa história boba. Sabe, eu jamais fui do tipo que gostou de clichês, mas me agradava me imaginar com vinte anos e ele me puxando pela cintura e me levando para cama, no dia seguinte acordar com um beijo e ele ao meu lado. Irônico. Paris era o nosso sonho quando ainda estávamos juntos e lá estava eu agora. Mas e ele? Aonde será que ele estaria? Será que estaria bem? Que conseguira tudo o que sonhava? Será que estava com alguma mulher? Doeu um pouco imaginar ele abraçando outra mulher como me abraçava, dando os beijos lentos e demorados que ele me dava em outra pessoa. Isso foi estranho. Já havia se passado tanto tempo desde que havíamos rompido, e lá estava eu agora sentindo uma pontada de ciúmes apenas por imaginar a possibilidade de haver outra em meu lugar agora. Resolvi fazer o oposto. Agora me imaginei por um minuto ao lado dele. Estaríamos deitados na cama, eu estaria deitada no ombro dele e nós dois enrolados nas cobertas vendo um filme que sequer estaríamos prestando atenção. Ele estaria mexendo no meu cabelo, exatamente como ele costumava fazer. E eu estaria olhando para a linda boca dele, pro sorriso dele que eu sempre amei tanto. Automaticamente sorri ao imaginar aquele sorriso lindo. Ah, aquele sorriso que costumava ser tão meu… Bateu uma saudade imensa, assim do nada. O que eu estava fazendo? Francamente, uma mulher da minha idade não poderia estar se sentindo assim por lembrar um cara que namorou até os dezesseis anos. Poderia? Isso era tão esquisito, mas por incrível que pareça, era exatamente como eu previ. “E eu me lembrarei. Mesmo que acabe, e não importa o tempo que passe, eu sempre vou me lembrar.” Eu dizia para mim mesma naquela época. Mas será que realmente era possível? Não, não poderia ser. Levantei-me da cama e fui para cozinha fazer um café bem amargo, exatamente do jeito que eu gostava. Acabei lembrando de uma vez que fui dormir na casa dele e preparei o café da manhã. “Você não acha que falta um pouco de açúcar aqui?”, perguntou ele com aquela cara de quem não queria me ofender, mas ao mesmo tempo com a cara de quem não estava achando o gosto nem um pouco bom. “Pode colocar se quiser. Mas eu gosto assim, forte e amargo” respondi. Essa lembrança tomou conta de mim. Lembrei de todos os beijos daquele dia, e do tempo enorme que ficamos trancados no quarto. Tentei deixar pra lá e fui ligar o rádio para me distrair antes que o meu dia perfeito sem trabalho e com uma chuva deliciosa se transforma-se em um dia nostálgico. Só piorei a situação. Quando liguei o rádio estava tocando uma música que eu conhecia muito bem, nossa música. “Why when we’re alone I don’t fell soa t home? Why when I’m at home I don’t fell so alone? So tell me darling you wish we fall in love? All the time, all the time.” Cantei aquela música, mesmo não a ouvindo há tantos anos, eu ainda sabia décor a letra. E tenho quase certeza que ele também. E, ah, o que eu não daria para que ele estivesse ali agora, cantando-a comigo. O que eu não daria para ele estar deitado na cama comigo assistindo “Days of Summer” da mesma forma que fizemos quando fui na sua casa no seu aniversário de quinze anos. O que eu não daria para ter ele bem ali. Incrível, não é? Depois de todo esse tempo, lá estava eu desejando-o, como sempre. Estranho que desde o começo, mesmo não acreditando em para sempre, eu sempre soube que ele era diferente, que não era como os outros. E bem, nós não duramos para sempre. Mas bem no fundo eu acho que essa coisa realmente não existe, é clichê demais para ser de verdade, não é? Mas talvez o pra sempre exista, só não como a maioria das pessoas imagina. Pra mim, para sempre é mais ou menos isso. Mesmo distante, mesmo depois de todo esse tempo, ainda sentir um certo ciúmes de imaginar esse alguém com uma outra pessoa, e lembrar do quanto era bom que ele sentisse ciúmes de você. Lembrar com carinho, e com uma pontada de vontade de voltar no tempo. Casais não são eternos, nunca foram, jamais serão. Mas acho que quando o sentimento permanece, por mais apagado que esteja, a gente alcança um pouco do “para sempre”. Porque, no final das contas, são eles que importam não é? Porque de que adiantaria estar com alguém se seus sentimentos fossem se apagando completamente com o tempo? Eu prefiro assim. Distante, mas ainda com uma faísca daquele fogo que um dia já existiu.
(Source: waiting-u)
O amor é assim, ele não tem data marcada, ele simplesmente te surpreende, é por isso que a gente sofre tanto por ele. (Destroymylife)
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